Mulher escrevendo (Johannes Vermeer).

Historiografia (de "historiógrafo", do grego ΙστοÏιογÏάφος, de ΙστοÏία, "História" e -γÏάφος, da raiz de γÏάφειν, "escrever": "o que escreve, ou descreve, a História"[1]) é uma palavra polissémica. Designa não apenas o registro escrito da História, a memória estabelecida pela própria humanidade através da escrita do seu próprio passado, mas também a ciência da História.

Ãndice

editar A historiografia como meta-história

Ver artigo principal: Filosofia da História

Se a História é uma ciência (cujo objecto é o passado da humanidade), tem que submeter-se, como toda a ciência, ao método científico. Ainda que este não possa ser integralmente aplicado a todos os campos das ciências experimentais, pode-se fazê-lo a um nível equiparável ao das chamadas Ciências Sociais (ver metodologia e metodologia nas ciências sociais).

Um terceiro conceito confluente no momento de definir-se a História como fonte de conhecimento é a chamada Teoria da História, também denominada como "historiologia" (termo cunhado por José Ortega y Gasset)[2]), cujo papel é o de estudar a estrutura, leis e condições da realidade histórica histórica (DRAE); enquanto que o da "historiografia" é o de relato em si mesmo da história, da arte de escrevê-la (DRAE).

É impossível acabar com a polissemia e com a superposição destas três acepções, mas de maneira simplificada, pode-se admitir: a história é o estudo dos feitos do passado; a historiografia é a ciência da história e a historiologia a sua epistemologia.

A Filosofia da História é o ramo da filosofia que concerne ao significado da história humana, se é que o tem. Especula acerca de um possível fim teleológico de seu desenvolvimento, ou seja, pergunta-se se há um esboço, um propósito, princípio director ou finalidade no processo da história humana. Não deve confundir-se com os três conceitos anteriores, dos quais se separa claramente. Se o seu objecto é a verdade ou o dever ser, se a história é cíclica ou linear, ou se nela existe a ideia de progresso, são matérias das quais trata esta disciplina, alheias à história e à historiografia propriamente ditas.

Um enfoque intelectual, que tampouco contribui muito para entender a ciência histórica como tal, é a subordinação do ponto de vista filosófico à historicidade, considerando toda a realidade como produto de um devir histórico: esse seria o lugar do historicismo, corrente filosófica que pode estender-se a outras ciências, como a Geografia.

Uma vez despojada da questão meramente nominal, resta para a historiografia, portanto, a análise da história escrita, das descrições do passado; especificamente dos enfoques na narração, interpretações, visões de mundo, uso das evidências ou documentos e os métodos de sua apresentação pelos historiadores; e também o estudo destes, por sua vez sujeitos e objectos da ciência.

A historiografia, de maneira restrita, é a maneira pela qual a história foi escrita. Em um sentido mais amplo, a historiografia refere-se à metodologia e às práticas da escrita da historia. Em um sentido mais específico, refere-se a escrever sobre a história em si.

editar Fontes historiográficas e seu tratamento

Ver artigo principal: Fonte documental

É importante distinguir a matéria-prima do trabalho dos historiadores (a fonte primária) do produto acabados ou semi-acabado (fonte secundária e fonte terciária). Do mesmo modo, importa notar a diferença entre a fonte e o documento e o estudo das fontes documentais: a sua classificação, prioridade e tipologia (escritas, orais, arqueológicas); o seu tratamento (reunião, crítica, contraste), e manter o devido respeito a essas fontes, principalmente com a sua citação fiel. A originalidade do trabalho dos historiadores é uma questão delicada.

editar A historiografia como produção historiográfica

Enterramento da cultura Nazca.
Frei Bartolomé de las Casas.

Historiografia é o equivalente a qualquer parte da produção historiográfica, ou seja: ao conjunto dos escritos dos historiadores acerca de um tema ou período histórico específico. Por exemplo, a frase: "é muito escassa a historiografia sobre a vida cotidiana no Japão na Era Meiji" quer dizer que existem poucos livros escritos sobre esta questão, uma vez que até ao momento ela não recebeu atenção por parte dos historiadores, e não porque esse objecto de estudo seja pouco relevante ou porque haja poucas fontes documentais que proporcionem documentação histórica para fazê-lo[3].

No que diz respeito à difusão e divulgação da produção historiográfica, seria bom que cumprisse os mesmos requisitos a que se submetem as demais publicações científicas (ver publicação).

Também se utiliza o vocábulo "historiografia" para falar do conjunto de historiadores de uma nação, por exemplo, em frases como esta: "a historiografia espanhola abriu os seus braços e os seus arquivos a partir da década de 1930 para os hispanistas franceses e anglo-saxãos, que renovaram a sua metodologia."

É necessário diferenciar os dois termos utilizados acima: "produção historiográfica" e "documentação histórica", ainda que em muitos casos coincida que os historiadores utilizem como documentação histórica precisamente a produção historiográfica anterior.

Por exemplo: sobre um conjunto de documentos de arquivo da Casa de Contratação em Sevilha que foi produzido apenas para fins de contabilidade[4]; ou qualquer material arqueológico que esteja em uma escavação no Peru, e se depositou sem a intenção de que alguém o encontrasse; um historiador americanista terá de usar a "Brevíssima Relação da Destruição das Ãndias", que foi escrita por Frei Bartolomé de Las Casas com um afã histórico indubitável, além de com fins da defesa de um interesse ou do seu próprio ponto de vista[5].

Com este último vemos outra insuperável característica da História que a peculiariza como ciência: nenhum historiador, por mais objectivo que pretenda ser, é alheio aos seus próprios interesses, ideologia ou mentalidades, nem pode subtrair-se ao seu ponto de vista particular. Quando muito, pode tentar a intersubjetividade, ou seja, ter em conta a existência de múltiplos pontos de vista. Para o caso do exemplo em tela, contrastar as fontes de Bartolomé de las Casas com as demais vozes que se ouviram na Junta de Valladolid, entre as quais se destacou a de seu rival, Juan Gines de Sepulveda, ou inclusive com a chamada "voz dos vencidos", que raramente é preservada, mas às vezes sim, como acontece com a "Nueva Crónica y Buen Gobierno" do inca Guaman Poma de Ayala[6].

A reflexão sobre a possibilidade ou impossibilidade de um enfoque objectivo conduz à necessidade de superar a oposição entre a objectividade (a de uma inexistente ciência "pura", que não seja contaminada pelo cientista) e subjectividade (implicada nos interesses, ideologia e limitações do cientista), com o conceito de intersubjectividade, que obriga a considerar a tarefa do historiador, como o de qualquer cientista, como um produtor social, inseparável do restante da cultura humana, em diálogo com os demais historiadores e com toda sociedade como um todo.

editar Historiografia e perspectiva: o objecto da História

A história não tem outra alternativa senão seguir a tendência de especialização de qualquer disciplina científica. O conhecimento de toda a realidade é epistemologicamente impossível, ainda que o esforço de conhecimento transversal, humanístico, de todas as partes da história, seja exigível a quem verdadeiramente queira ter uma visão correcta do passado.

A História, portanto, deve segmentar-se, não apenas porque a perspectiva do historiador esteja contaminada com subjectividade e ideologia, mas porque ele deve optar, necessariamente, por um ponto de vista, do mesmo modo que um cientista: se quiser observar o seu objecto, deve optar por usar um telescópio ou um microscópio (ou, de forma menos grosseira, que tipo de lente irá aplicar). Com o ponto de vista determina-se a selecção da parte da realidade histórica que se toma como objecto, e que, sem dúvida, dará tanto a informação sobre o objecto estudado como sobre as motivações de um historiador que o estuda. Essa visão preferencial pode ser consciente ou inconsciente, assumida com maior ou menor cinismo pelo historiador, e é diferente para cada época, para cada nacionalidade, religião, classe social ou âmbito no qual o historiador pretenda situar-se.

A inevitável perda que supõe a segmentação, compensa-se pela confiança em que outros historiadores farão outras selecções, sempre parciais, que devem complementar-se. A pretensão de conseguir uma perspectiva holística, como o pretende a História total ou a História das Civilizações, não substitui a necessidade de todas e cada uma das perspectivas parciais como as que se tratam a seguir:

editar Recortes temporais

Mapa-múndi de Fra Mauro (detalhe): incomoda-nos um mapa invertido?
Ver artigo principal: Cronologia
Ver artigo principal: Arcontologia
Ver artigo principal: Tempo histórico

Os recortes temporais vão desde as periodizações clássicas (Pré-história, História, Idade Antiga, Idade Média, Idade Moderna ou Idade Contemporânea), até às histórias por séculos, reinados, e outras. A periodização clássica (ver a sua justificação em Divisão do tempo histórico) é discutível, tanto pela necessidade de períodos de transição e de solapamentos, como por não representar períodos coincidentes para todos os países do mundo (razão pela qual foi acusada de eurocêntrica).

A Escola dos Annales foi uma das origens da fixação da memória dos feitos históricos em muitas culturas (veja-se em seu verbete próprio e mais abaixo em Historiografia de Roma). As crónicas (que em seu nome já indicam a intenção do recorte temporal) são usadas como reflexo dos acontecimentos notáveis de um período, habitualmente um reinado (veja-se no verbete próprio e mais abaixo em Historiografia da Idade Média e Historiografia espanhola medieval e moderna). A arcontologia seria a limitação do registro histórico à lista de nomes que ocupavam determinados cargos de importância ordenados cronologicamente. De fato, a mesma cronologia, disciplina auxiliar da história, nasce em muitas civilizações, associada ao cômputo do tempo passado que se fixa na memória escrita pelos nomes dos magistrados, como ocorria em Roma, onde era mais comum citar um ano por ser o dos cônsules tais ou quais. No Egipto, a localização do tempo se fazia pelos faraós e dinastias. É muito significativo que nas culturas não históricas, que não fixam mediante a escrita a memória do seu passado, é muito frequente que não se mantenha a duração concreta do tempo passado mais do que uns poucos anos, que podem ser inclusive menos do que os que dura uma vida humana[7]. Tudo o que ocorre fora dele é referido como faz muito tempoâ€, ou como no tempo dos antepassados, que passa a ser um tempo mítico, ahistórico[8].

O tratamento cronológico é o mais utilizado pela maioria dos historiadores, pois é o que corresponde à narrativa convencional, e o que permite ligar as causas passadas com os efeitos no presente ou no futuro. No entanto, ele é usado de várias maneiras: por exemplo, o historiador deve sempre optar por um tratamento síncrono ou diacrónico do seu estudo dos factos, ainda que muitas vezes se façam os dois.

  • o tratamento diacrónico estuda a evolução temporal de um fato, por exemplo, a formação da classe operária na Inglaterra ao longo dos séculos XVIII e XIX.
  • o tratamento síncrono, concentra-se nas diferenças que o fato histórico estudado tem ao mesmo tempo, mas em diferentes níveis, por exemplo: compara a situação da classe trabalhadora na França e na Inglaterra, na conjuntura da revolução de 1848 (ambos os exemplos foram referidos a partir de Edward Palmer Thompson[9].

Períodos ou momentos especialmente atraentes para os historiadores acabam convertendo-se, pela intensidade do debate e do volume de produção em verdadeiras especialidades, tais como a história da Guerra Civil Espanhola, a história da Revolução Francesa a da Independência dos Estados Unidos da América, ou a da Revolução Soviética, por exemplo.

Também devem ser consideradas as diferentes concepções de tempo histórico, que, de acordo com Fernand Braudel vão da longa duração ao evento pontual, passando pela conjuntura.

editar Recortes metodológicos: as fontes não escritas

Ver artigo principal: Arqueologia
Pré-história
Idade da Pedra Idade dos Metais
Paleolítico Mesolítico Neolítico Idade do Cobre Idade do Bronze Idade do Ferro
P. Inferior P. Médio P. Superior Epipaleolítico Protoneolítico


No caso do período pré-histórico, a diferença radical entre fontes e método (assim como a divisão burocrática das cátedras universitárias) fazem com que seja uma ciência muito distante daquela feita pelos historiadores, sobretudo quando tais fontes e métodos se prolongam, dando primazia à utilização das fontes arqueológicas e ao estudo da cultura material em períodos para os quais já existam fontes escritas, falando-se então não da Pré-história, mas sim propriamente da Arqueologia com as suas próprias periodizações (Arqueologia clássica, Arqueologia Medieval e mesmo Arqueologia Industrial). Uma diferença menor pode ser encontrada com o uso de fontes orais, no que é chamado de História Oral. Não obstante, há que recordar o que foi dito (ver acima recortes temporais) acerca da primazia das fontes escritas e o que estas determinam à ciência historiográfica e à própria consciência da história em seu protagonista, que é toda a humanidade.

editar Recortes espaciais

São exemplos de recortes espaciais a História continental, a História nacional e a História regional. O papel da história nacional na definição das próprias nações é inegável (para a Espanha, por exemplo, desde as Crónicas medievais até à História do Padre Mariana; veja-se ainda nacionalismo). Também como exemplo, veja-se em História da História) como os historiadores se agrupam distintamente por nacionalidade, por época ou por tendência.

A Geografia dispõe de conceitos não tão potentes porém não menos arbitrários, que têm permitido edificar o prestigioso ramo da Geografia regional. A História local é, sem dúvida, a de mais fácil justificação e de validade universal, sempre que supere o nível da simples erudição (que ao menos sempre servirá como fonte primária para obras de maior ambição explicativa).

editar Recortes temáticos

São os que dão lugar a uma história sectorial, presente na historiografia desde a antiguidade, como ocorre com a:

Uma das formas de se perguntar qual é o objecto da História é através da escolha do que é que merece ser mantido na memória, quais são os factos memoráveis. São todos, ou são apenas aqueles que o historiador considera transcendentais? Na lista acima, temos algumas respostas que cada um pode dar.

Algumas destas denominações encerram não uma simples divisão, mas sim visões metodológicas opostas ou divergentes, que se têm multiplicado nos últimos cinquenta anos. A história é hoje mais plural do que nunca, dividida em uma multiplicidade de especialidades tão fragmentada que muitos dos seus ramos não se comunicam entre si, sem ter sujeito e objecto comuns:

editar Ciências auxiliares da História

A fragmentação do objecto histórico pode induzir, em algumas ocasiões, a uma limitação muito forçada da perspectiva historiográfica. Levada a um extremo, pode-se reduzir a história à ciência auxiliar daquela de que se serve para encontrar explicação para os factos do passado, como por exemplo a Economia, a Demografia, a Sociologia, a Antropologia ou a Ecologia.

Em outras ocasiões, a limitação do campo de estudo produz realmente um "género historiográfico":

editar Géneros historiográficos

Clio, a musa da História, por Pierre Mignard (1689).

Pode assinalar-se que há "géneros historiográficos" que participam da História mas que podem chegar a aproximar-se mais ou menos dela: num extremo encontram-se os terrenos da ficção ocupados pela novela histórica, cujo valor desigual não diminui a sua importância. Outro extremo é ocupado pela Biografia e um género anexo, sistemático e extraordinariamente útil para a história geral como é a Prosopografia. Vinculada à história desde o começo do registro escrito, uma de suas principais preocupações no momento de estabelecer os dados foi o que hoje chamamos Arcontologia (as listas de reis e dirigentes).

editar Correntes historiográficas: o sujeito da História

Ver artigo principal: Sujeito histórico

De modo mais explícito, as correntes historiográficas normalmente explicitam a sua metodologia de uma forma combativa, como o Providencialismo, de origem Cristã (convém recordar que, para além da tradição historiográfica grega Heródoto e Tucídides, a origem da nossa historiografia é a História sagrada) ou o Materialismo histórico de origem marxista (que triunfou nos ambientes intelectuais e universitários europeus e americanos em meados do século XX, permanecendo adormecido desde a queda do Muro de Berlim)[10].

Às vezes a rotulação das correntes é obra de seus detractores, com o que os historiadores ali identificados podem ou não concordar com o modo pelo qual foram definidos. Este tipo de coisa poderia ser dito do próprio providencialismo, mas seria mais apropriado para correntes mais modernas, como o positivo burguês, a história dos eventos (dos acontecimentos) e outras.

É sempre necessário interpretar a historiografia como parte da atmosfera intelectual da época em que se coloca. Qualquer produção cultural é dependente do modelo cultural existente, chamando-se a isso moda, estilo ou paradigma dominante na arte ou na filosofia, e é evidente que o registro da história é uma produção cultural. A desconstrução, o pensamento débil ou a pós-modernidade, conceitos do final do século XX, foram a incubadora da actual desconstrução da história, que para alguns é apenas uma narrativa[11].

Uma boa maneira de distinguir a interpretação da história que tem uma determinada corrente historiográfica actual é perguntar-lhe a quem considera "sujeito histórico" ou verdadeiro protagonista da história.

editar Agrupamentos de historiadores

Grupos de historiadores que partilham metodologias (e se autopromovem conjuntamente com o poderoso mecanismo publicação-citação) surgem por vezes em torno de revistas, como a escola francesa dos Annales, a inglesa Past and Present ou a italiana Quaderni Storici; grupos de investigação ou as próprias cátedras universitárias, que são a cúspide da reprodução das elites historiográficas, através do clientelismo e do reconhecimento entre pares ("peer review").

editar A história da História

O surgimento da História é equivalente ao da escrita, mas a consciência de estudar o passado ou de deixar para o futuro um registro da memória é uma elaboração mais complexa do que as anotações dos templos da Suméria[12]. As estelas e relevos comemorativas de batalhas na Mesopotâmia e no Egipto já são algo mais aproximado.

As demais civilizações asiáticas alcançaram a escrita e a história em seu próprio ritmo, pela compilação das suas fontes teológicas sob a forma de livros sagrados - por vezes com trechos históricos (como a Bíblia hebraica) ou sofisticações cronológicas (como os Vedas hindu) -, registram os seus próprios anais e finalmente a sua própria historiografia, em especial na China[13], que tem o seu Heródoto em Sima Qian ("Memórias históricas", 109 a.C. – 91 a.C.) e alcançou uma definição clássica história tipificada, oficial, com o Livro dos Han de Ban Gu (século I), que estabeleceu um padrão repetido sucessivamente pelos historiadores dos períodos seguintes, de vinte e cinco "histórias tipificadas" até 1928, data em que apareceu a última dessa monumental série.[14].

No continente americano, salvo a civilização Maia, não há textos, de forma alguma, comparáveis. No entanto, o desenvolvimento e a variedade que a historiografia alcançou na Civilização Ocidental é de um nível diferente a todas elas[15].

editar Grécia

Heródoto e Tucídides, opostos em um curioso mármore no Museu de Nápoles.

Os primeiros Gregos, que se interessaram sobretudo sobre os mitos de criação (os logógrafos), já praticavam a recitação dos eventos. A sua narração podia apoiar-se em escritos, como foi o caso de Hecateu de Mileto, na segunda metade do século VI a.C.. No século V a.C. Heródoto de Halicarnaso diferenciou-se deles pela sua vontade de distinguir o verdadeiro do falso; por isso, realizou a sua "investigação" (etimologicamente "História"). Uma geração mais tarde, com Tucídides, esta preocupação tornou-se crítica, com base na confrontação de diferentes fontes orais e escritas. A sua "História da Guerra do Peloponeso" pode ser vista como a primeira obra verdadeiramente historiográfica.

Os seguidores do novo género literário inaugurado por Heródoto e Tucídides foram muito numerosas na Grécia Antiga e, entre eles contam-se Xenofonte (autor do "Anábasis"), Posidónio Ctésias, Apolodoro de Artémis, Apolodoro de Atenas e Aristóbulo de Casandrea, entre outros (Ver literatura grega e historiografia helenística)

No século II a.C. Políbio, em sua obra "Pragmateia" (traduzido também como "História"), talvez tentando escrever uma obra de Geografia, abordou a questão da sucessão dos regimes políticos para explicar como é que o seu mundo entrou na órbita romana. Ele foi o primeiro a procurar causas intrínsecas para o desenvolvimento da história, mais do que evocar princípios externos. Nesta fase do período helenístico, a biblioteca e o Museu de Alexandria representavam o ápice do afã grego em preservar a memória do passado, o que significa a sua valorização como uma ferramenta útil para o presente e o futuro.

editar Roma

Tácito.

A civilização romana dispõe, à semelhança dos gregos Homero e Hesíodo, de mitos de origem recolhidos por Virgílio que os poetizou na Eneida como um elemento do programa ideológico desenhado por Augusto. Também, pelo menos desde a República, teve um cuidado especial pela recopilação de feitos em anais, a legislação escrita e os arquivos vinculados ao sagrado dos templos. Até às guerras púnicas a recopilação dos principais sucessos ocorridos estava a cargo dos pontífices, sob a forma de crónicas anuais.

A primeira obra histórica latina completa é "As Origens" de Catão, do século III a.C..

O contacto de Roma com o mundo Mediterrâneo, primeiro com Cartago, mas sobretudo com a Grécia, o Egipto e o Oriente, foi fundamental para ampliar a visão e utilidade do seu género histórico. Os historiadores (quer romanos quer gregos) acompanharam os exércitos nas campanhas militares, com o objectivo declarado de preservar a sua memória para a posteridade, de recolher informações úteis e de justificar as suas acções. A língua culta, o idioma grego, foi utilizado para este género, a par da mais sóbria, o Latim.

Salústio, o Tucídides romano, escreveu De Coniuratione Catilinae (A conjuração de Catilina, da qual foi contemporâneo, no ano de 63 a.C.). Faz um extenso relato das causas remotas da conjuração, assim como das ambições de Catilina, retractado como um nobre degenerado e sem escrúpulos. Em Bellum Ingurthinum (“A Guerra de Yugurta†rei dos númidas, 111 a.C. – 105 a.C.), denuncia um escândalo colonial. Historiae foi a sua obra mais ambiciosa e madura, parcialmente conservada que abrange, em cinco livros, os doze anos transcorridos após a morte de Sila em 78 a.C. até 67 a.C.. Não e a precisão histórica que lhe interessa e sim a narração de alguns factos com as suas causas e consequências, assim como a oportunidade de esclarecer o processo de degeneração em que a República se viu imersa. Além dos indivíduos, o objecto da sua observação centra-se nas classes sociais e nas facções políticas: idealiza um passado virtuoso, e detecta um processo de decadência que atribui aos vícios morais, à discórdia social e ao abuso do poder pelas diferentes facções políticas.

Júlio César com o seu "Commentarii Rerum Gestarum", acerca de duas das maiores operações militares que conduziu, as Guerras da Gália (58 a.C. – 52 a.C.) (De Bello Gallico) e a guerra civil (49 a.C. – 48 (De Bello Civili).

Tito Lívio (59 a.C. – 17), com os cento e quarenta e dois livros de "Ab Urbe Condita", divididos em grupos de dez livros, conhecidos como "Décadas", actualmente perdidos em sua maior parte, escreveu uma grande História nacional, cujo único tema é Roma ("fortuna populi romani"), e cujos únicos actores são o Senado e as pessoas de Roma ("senatus populus que romanus", SPQR). O seu objectivo geral é ético e didáctico; os seus métodos foram os do grego Isócrates do século IV a.C.: é dever da História dizer a verdade e ser imparcial, mas a verdade deve apresentar-se de uma maneira elaborada e literária. Ele utilizou como fonte os primeiros analistas e Políbio, mas o seu patriotismo levou-o a distorcer a realidade em detrimento do exterior e a um espírito crítico pobre. É um historiador de gabinete, não viaja nem conhece pessoalmente os cenários dos eventos que descreve.

Tácito (55 - 120), o grande historiador do Império sob os Flávios, é, acima de tudo, um investigador das causas.

A lista de historiadores da época romana é vasta, tanto em língua latina (Plínio, o velho, Suetónio e outros[16] ou grega (Estrabão, Plutarco).

Na decadência de Roma, o Cristianismo virá a dar uma mudança metodológica radical, introduzindo o providencialismo de Agostinho de Hipona. É exemplo Orósio, presbítero hispânico de Braga ("Historiae adversum paganus").

editar Idade Média

O venerável Beda.

A historiografia medieval é feita principalmente por hagiógrafos, cronistas, membros do clero episcopal próximos ao poder, ou pelos monges. Escrevem-se genealogias, áridos anais, listas cronológicas de acontecimentos ocorridos nos reinados dos seus soberanos (anais reais) ou da sucessão de abades (anais monásticos); "vidas" (biografias) de carácter edificante, como as dos santos Merovíngios, ou, mais tarde, dos reis da França), e "histórias" que contam o nascimento de uma nação cristã, exaltam uma dinastia ou, inversamente, fustigam os ignóbeis de uma perspectiva religiosa. Esta história, de que são exemplos Beda, o venerável ("Historia Ecclesiastica Gentis Anglorum", século VIII) ou Isidoro de Sevilha ("Etimologias" e "Historia Gothorum"), é providencialista, de inspiração agostiniana, e circunscreve as acções dos homens nos desígnios de Deus. É preciso esperar até ao século XIV para que os cronistas se interessem pelo povo, o grande ausente da produção deste período, como por exemplo, a do francês Jean Froissart ou do florentino Matteo Villani.

editar Idade Moderna

Folha de rosto de As vidas, de Giorgio Vasari.

Durante o Renascimento, o Humanismo trouxe um gosto renovado pelo estudo dos textos antigos, gregos ou latinos, mas também pelo estudo de novos suportes: as inscrições (epigrafia); as moedas (numismática) ou as cartas, diplomas e outros documentos (diplomática). Estas novas ciências auxiliares da era moderna contribuíram para enriquecer os métodos dos historiadores: em 1681 Dom Mabillon indicou os critérios para determinar a autenticidade de um registro, pela comparação de diferentes fontes em "De Re Diplomática". Em Nápoles, mais de duzentos anos antes, Lorenzo Valla, a serviço de Afonso V de Aragão tinha conseguido demonstrar a falsidade da Doação de Constantino. Giorgio Vasari com a obra "As vidas" ofereceu, por sua vez, uma fonte e um método historiográfico para a História da Arte.

Neste período a história não é diferente da geografia e nem mesmo das ciências naturais. É dividida em duas partes: a história geral (actualmente denominada simplesmente como "história") e a história natural (actualmente as ciências naturais e a geografia). Este sentido amplo de história pode ser explicado pela etimologia da palavra (ver História).

A questão da unidade do reino que se colocou pelas guerras de religião na França no século XVI, deu origem a trabalhos de historiadores que pertencem à corrente chamada de "história perfeita", que mostra que a unidade política e religiosa da França moderna é necessária, ao derivar-se de origens Gaulesas (Etienne Pasquier, "Recherches de la France"). O providencialismo de autores como Jacques-Bénigne Bossuet ("Discurso sobre a história universal", 1681), tende a desvalorizar o significado de qualquer mudança histórica.

Ao mesmo tempo, a história se mostra como um instrumento de poder: põe-se ao serviço dos príncipes, desde Nicolau Maquiavel até aos panegiristas de Luís XIV de França, entre os quais se incluiu Jean Racine.

editar Historiografia espanhola medieval e moderna

Embora não se trate de nada de novo, e a historiografia espanhola é, talvez, o mais completo exemplo de um esforço secular para manter a continuidade da memória escrita do passado, que tão bons serviços prestou desde as crónicas medievais que justificavam a Reconquista, para reforçar o poder dos reis nos vários reinos cristãos.

editar As crónicas

"Estoria de España", de Afonso X, século XIII.

Para o Principado das Astúrias, o Reino de Leão e o Reino de Castela encadeiam-se sucessivamente em um conjunto abrangente, que realmente começa com duas crónicas redigidas em território andaluz: a "Crónica bizantina-árabe" (741) e a "Crónica Mozárabe"(754), que precedem uma crónica actualmente perdida do reinado de Afonso II e estabelecem a sua continuidade com as de Afonso III ao final do século IX ("Crónica Albeldense", "Crónica Rotense", "Crónica Profética" e "Crónica Sebastianense"), a de Sampiro (do reinado de Bermudo II de Leão, por volta do ano 1000), as do século XII ("Crónica Silense" ou do monge anónimo de Santo Domingo de Silos, por volta de 1110, a de Pelayo, Bispo de Oviedo, a "Crónica do Imperador Afonso VII" e a do monge anónimo de Nájera, estas três do final do século), as do reinado de Fernando III de Leão e Castela ("Chronicon mundi" de Lucas, bispo de Tuy, "Crónica Latina dos reis de Castela" de Juan, bispo de Osma e "De rebus Hispaniae" de Rodrigo Jimenez de Rada, arcebispo de Toledo), as de Afonso X de Leão e Castela ("História de Espanha", editado pelo filólogo Ramón Menéndez Pidal com o título de "Primeira Crónica General", e a "Grande e General Estoria"); chegando ao século XIV, em que se destacam as "Crónicas" de Pedro López de Ayala ("Crónica do rei D. Pedro", a de Henrique II, a de João I e a inacabada de Henrique III), mais sóbrias e próximas aos factos que as suas contemporâneas europeias, embora o seu objectivo principal seja o da auto-justificação de seu autor, Chanceler de Castela, que compôs ainda o "Rimado de Palacio", onde descreve os seus contemporâneos.

No século XV, a recompilação de crónicas multiplicou-se: a "Suma de crónicas de España", de Pablo Garcia de Santa Maria (até 1412); "Crónica de Juan II" (sobre eventos de 1406 a 1434) por Ãlvar Garcia de Santa Maria (c. 1370 - 1460), irmão de Pablo (e retomada com o nome de "Crónica del Halconero" por Pedro Carrillo de Huete, sendo refundida por Lope de Barrientos); Alfonso Martinez de Toledo (arcipreste de Talavera) escreveu em 1443 uma "Atalaia das Crónicas"; a "Crónica" de Ãlvaro de Luna(1453), é atribuída a Gonzalo Chacon; Diego de Valera escreveu a "Crónica abreviada de Espanha" ou "Crónica Valeriana" (1482), que terminou no reinado de João II, o "Memorial de diversas hazañas", o de Henrique IV (1486 - 1487) e a "Crónica de los Reyes Católicos" (até 1488)[17].

Nos outros reinos cristãos peninsulares, a literatura cronística é algo mais tardia, mas produz a primeira história geral da Espanha em uma língua romântica: o "Liber regum", redigido entre 1194 e 1211 em Aragonês, que conta a história dos distintos reinos cristãos desde as origens míticas da história peninsular[18]. O Condado de Aragão produziu em 851 a "Passio beatissimarum birginum Nunilonis atque Alodie". E do posterior Reino de Aragão dispomos dos "Anales de San Juan de la Peña", do século XII, que foram copiados na "crónica homónima". Do mesmo século data uma "Breve história ribagorzana de los reyes de Aragón"[19].

Para a Coroa de Aragão, após as "Gestas veterum Comitatum Barcinonensium e Regum Aragonensium" (iniciada no século XII e continuada até ao século XIV), destaca-se o "Llibre dels feyts" ou "Crónica de Jaime I o Conquistador"; a "Crónica de San Juan de la Peña" ou de "Pedro, o Ceremonioso"; a de Ramón Muntaner, que abrange o período de 1207 a 1328, incluindo a famosa expedição dos almogávares, da qual participou, e a de Bernat Desclot "Llibre del rei En Pere d'Aragó e dels seus antecessors passats" (segunda metade do século XIII).

Completam o quadro peninsular a "Crónica de los Reyes de Navarra" (1454), do Príncipe de Viana (composta para justificar a sua aspiração ao trono), e os "Annales Portugaleses Veteres" (987-1079).

editar Século XVI

Argensola, em gravura de Luis Paret para El Parnaso Español.

Após a unificação dos Reis Católicos, já na Idade Moderna, continua com a mesma função, explicitamente, a monumental "História da Espanha", do Padre Mariana ("De Rebus Hispaniae libri XX", 1592, aumentada para trinta livros em sua própria tradução para o castelhano em 1601). Este religioso tornou-se célebre por sua defesa do tiranicídio em "De Rege et regendi ratione" escrito para a educação de Filipe III de Espanha.

Outros cronistas do século XVI foram Florián de Ocampo e Ambrosio de Morales (continuando a "Crónica General" em cinco livros, iniciada por aquele); Jerónimo Zurita ("Anales de la Corona de Aragón") e Esteban de Garibay ("Compendio Historial de las Chronicas y Universal Historia de todos los reynos de España").

editar Século XVII

A historiografia barroca inclui manipulações históricas fantasiosas, como os "plomos del Sacromonte" ou os falsos cronicões "Ramón de la Higuera". Fray Prudencio de Sandoval continua a crónica de Ocampo e Morales e redige uma "Historia de la vida y hechos del Emperador Carlos V"; Pedro de Salazar y Mendoza, uma "Origen de las dignidades seglares de Castilla y León" e Bartolomé Leonardo de Argensola, os "Anales de Aragón".

Em fins do século XVII, a reflexão sobre a própria historiografia surge na Espanha como uma necessidade decorrente do acúmulo de tão vasto corpo cronístico, sendo a sua primeira tentativa a "Noticia y juicio de los más principales historiadores de España, de Gaspar Ibáñez de Segovia, marquês de Mondéjar (publicado após a sua morte em 1708).

editar Outros géneros historiográficos

Outros géneros historiográficos também foram cultivados desde a Idade Média, como o tratamento de uma figura isolada (o ciclo de El Cid) e, já no século XV, as memórias (Leonor Lopez de Cordoba, circa 1400), a biografia ("El Victorial" de Gutierre Díez de Games, "Generaciones y Semblanzas" de Fernán Pérez de Guzmán) e a relação de um evento pontual como o "Libro del paso honroso de Suero de Quiñones", de Rodríguez de Lena. Os livros de viagens como o de Pedro Tafur o de Ruy González de Clavijo (que foi embaixador diante de Tamerlão), também proporcionam valiosas informações.

editar O "Al-Andalus"

Na primeira metade do século X da Era cristã (IV da Hégira), Muhammad Al-Razi redigiu a primeira história geral da Península Ibérica, "Ajbar Mutuk al-andalus" continuada por outros al-Razi: o seu filho Ahmad (conhecido em castelhano como o "Mouro Rasis") e o deste (Isa ben Ahmad). Esta história foi divulgada nos reinos cristãos com o nome de "Crónica del Moro Rasis", que foi utilizada por Jiménez de Rada.

Aríb de Córdoba, secretário de Al-Hakam II, escreveu uma Crónica de seu governo, e no mesmo reinado Muhammad al-Jusaní (morto em 361/971) o "Kitáb al-qudá bi-Qurtuba" história dos cadis (juízes) de Córdoba.

À época de Almançor escreveu-se uma história controladíssima, como é a de Ibn Asim, significativamente intitulada de "al-Ma'atir al-camiriyya" ("Gestas amiríes"), obra que apenas conhecemos por referências.

Entre os historiadores do século XI (V da Hégira), na idade de ouro que coincidiu com a desagregação do califado e o surgimento dos reinos taifa, os cordoveses Ibn Hazm ("Fisal" ou "Historia crítica de las religiones, sectas y escuelas") e